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terça-feira, 13 de novembro de 2012

"Pedro Caballero, Guionista" na TV Unesp



Há pouco menos de um ano, eu estava em Sevilha, Espanha, durante intercâmbio. Tive a feliz escolha de não apenas estudar jornalismo durante minha estada de seis meses, mas também produção audiovisual. Assim, conheci um grande amigo na incrível aula de Trilhas Sonoras de Carlos Colón (trabalhou com Fellini, conhecia cinema como ninguém e era nada arrogante). O amigo  que conheci era o italiano Pierre Faiazza, estudante de cinema em Bergamo, Itália, que também assistia às aulas.

Papo vai, papo vem, nos tornamos amigos de sempre depois das aulas conversar sobre cinema, mulheres, a vida... Como éramos poucos os estrangeiros que estudavam comunicação audiovisual, foi fácil conhecer os outros amigos (Malu, Vadim, Paloma, Pietro, Lise, Gabo, Carmen e muitos mais) e esses fariam parte de uma ideia de projeto de Pierre: uma história de um roteirista que precisa dialogar com seu personagem para ter a sua trama completa.

Esse foi o início de Pedro Caballero, Guionista, curta-metragem que realizamos em Sevilha em que fui assistente de direção e que, quase um ano depois, teve sua exibição na TV Unesp dentro do programa Curta Unesp. Nele, eu e Pierre (ele por Skype e eu no estúdio) falamos sobre os momentos que passamos em Sevilha, a ideia do curta, o processo de produção e histórias que dão saudade.

Aqui o programa da TV Unesp com entrevista comigo e Pierre e o curta-metragem no final:


E aqui apenas o curta pra quem não quiser nos ver falar:




E, com o tempo, vejo e verei (acho) que o curta é cada vez mais um registro de um momento desses jovens em uma cidade tão linda (e agora emblemática para mim) que passamos por tão pouco tempo e que nos marcou tanto.


Atores: Gabo Da Luz Moreira, Manuel Gonzalez, Cristian Avila Dominguez, Lise Dieumegard.

Escrito, dirigido e produzido por Pierre Faiazza.

Assistente de Direção: Renan Simão
Direcão de Fotografia: Paloma Pineda
Operador de Câmera: Vadim Alsayed
Captação de Som: Eduardo Macias
Maquiagem: Laura Maria Villalba
Runner: Pietro Vallome
Música: Manuel Muriel Rivas.
Desenhos: Carmen Cardoso Garcia.
Catering: Melanie Godefry-Martin
Consultora: Samantha Jimenez Albi
Edição: Pierre Faiazza

Rodado em Sevilha, Espanha, em Janeiro de 2012.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

O pato... quém quém...




A certo ponto Sá diz que o João Gilberto resfriado só poderia cantar a música "O Pato" e somente a parte do "Quém, Quém". E isso me remete a três semanas atrás quando fui a Madrid e fiquei numa república de alemãs, um marroquino e um franco-inglês. Todos muito simpáticos.

E papo vai e papo vem, sempre sobra um assunto assim: 
"Ah, você é do Brasil, muito samba, mulheres, praia", todos menos o inglês.

"Ahan, tem tudo isso sim e mais um monte de coisa.", disse, conformado em não começar uma teoria sobre a tropicalização brasileira no exterior.  

Subitamente, o inglês meio francês disse: "Você conhece João Gilberto?"

"Conheço", disse, surpreso. "Você gosta de Bossa Nova?"

"Gosto! Mas a melhor é a música do Pato".

E começou a cantar:


O Pato
Vinha cantando alegremente
Quém! Quém!
Quando um Marreco
Sorridente pediu
Prá entrar também no samba
No samba, no samba...

Com um aceitável português e um sotaque hilário (inclusive pronunciando os "Quém, Quém"), o gringo me fez pensar como o mundo é bem louco. Um franco-inglês em Madrid cantando "O Pato" de João Gilberto. 

"Quém, Quém".

   

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

A elegância sob o efeito do rum




Ainda não vi Rum Diary, filme que narra a estada de Paul Kemp (er, Hunter S. Thompson) em Porto Rico em busca de trabalho, calor, mulheres e rum barato. Mas li  Rum: Diário de um Jornalista Bêbado (Companhia das Letras) e foi a primeira coisa que conheci  em profundo do jornalista que inspirou o gênero gonzo no jornalismo.

Esperava páginas repletas de viagens e chapação sem fim, tal qual sugere o filme Medo e Delírio em Las Vegas, de Terry Gilliam. (Tou ligado, vou ler o livro.) Porém, a elegância do sujeito ranzinza em escrever sobre San Juan, capital de Porto Rico, e suas histórias é impressionante. A descrição das bebedeiras, do sexo, das brigas e dos pensamentos de Thompson são despojados mas de maneira elegante. Cada erguida de sobrancelha ou enxugada de suor da testa é dita por um narrador que está dentro da história mas mantém uma distância dos fatos. É demais. Lembro da descrição de um dos funcionários do jornal de Kemp, quando soube que o jornal podia acabar.

"Nervoso, trocou o peso da perna esquerda pelo o da direita", parafraseando da minha cabeça mas tá valendo. Genial.

Cada imagem se forma fácil diante dos olhos do leitor. As ligações da mente de Thompson apesar de confusas são postas claramente, ouso dizer até objetivamente. A história das personagens, a composição psicológica, a paranoia, os inevitáveis arquétipos são simples e facilmente inteligíveis. Características inerentes ao jornalismo e ao pop.

O livro não tem um mote incrível. São apenas as histórias e reflexões de um jornalista bêbado em uma cidade calorenta fora da América que procura algo novo de sua vida que não seja o frio e as mesmas pessoas de Nova York. (Hunter tinha 23 anos quando saiu de NY, demitido de um jornal. A época era 1960.)

Mas a escrita é atraente, mais especificamente as análises de Thompson ao final de cada capítulo são o que me levaram ir ao final de cada microhistória. A vida, o fracasso, a solidão... tudo entrelaçado em acontecimentos aparentemente triviais que fazem você pensar em como ele sacou a essência das pessoas e a sua própria.

Outro momento genial é quando depois de uma surra homérica, uma prisão injusta e dois dias sem dormir, Kemp caminha pela San Juan deserta, fria pela manhã e descorre sobre a beleza da cidade e o seu silêncio estranho. Linda passagem sobre a presença do fracasso e a vitória dentro de um mesmo homem.




 








e a chuva lá fora...




En se frottant au piano nostalgique...

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Flamenco de quintal

Pense numa noite de quinta-feira sem propósito nenhum a não ser escutar música no quintal. Pense no samba, no pagode. Os amigos vão chegando, a cerveja é barata no bar do lado e alguém traz o pandeiro e violão. O quintal fica cheio e a noite mais feliz para esses simples apreciadores de papo, música e cerveja.

Pois ontem encontrei por acaso exatamente isso, só que era Flamenco. Andando pela Rua Castellar, procurando um bar de jazz, um cara na rua disse: “Hay gente aquí, Flamenco, sabes?”

Claro.

Através de uma porta grande e velha, havia um caminho longo dentro de um prédio, acho que existiam apartamentos e pequenos escritórios. Tudo velho, tudo sujo. Ao fim do corredor, um quintal grande com umas 100 pessoas em volta de duas mulheres e um homem tocando violão. Era só chegar para ouvir o Flamenco.

Chão de terra e cimento, paredes com cores perdidas pelo tempo, reboco saindo de tudo. As pessoas, em sua maioria jovens, sentavam nas famigeradas cadeiras de bar. Quem sobrava assistia de pé. Todos em volta de um tablado de madeira.

Eu, longe, podia ouvir uma voz muito forte e um som de percussão que me fazia perguntar: “Parece cajón, mas cadê?”. Esticando a cabeça por cima de todos pude ver que o som saía das sapatilhas da dançarina machucando o tablado do local.  

Eram: um senhor careca no violão, uma menina dançando e a cantora, atração à parte, vou deixar pro final. A música tinha muitos tempos, paradas. Há partes que o violão toma conta, mais baixinho e triste. Outras em que apenas os pés dos três trabalham ou quando só a voz da cantora envolve o lugar de melancolia, quase à capela só com suaves acordes de violão. A dançarina, ao mesmo tempo em que é a estrela, representando a beleza da melodia, também é pulsante, ela é o cajón. Quando pisa o chão, a parte de trás do pé gera o som mais forte, à frente o som mais fraco e as pontas dos pés criam um impacto surdo. Essa junção de beleza e choque impressiona.

Mas o que me deixou viajando foi como a cantora se expressava na mesma sintonia da música. Era uma mulher simples, morena, cabelo castanho liso, calça jeans e bata azul, tinha 40 anos aparentemente. Uma idade boa pra lembrar o passado e sentir a dor daquilo que já passou e não volta mais, creio eu. Ora era uma mãe chorando a partida do filho ou do marido cafajeste, ora estufava o peito para seduzir o novo amor. 

Quando atingia notas altas e longas, ouviam-se uns “vale” e “guapa” de velhos do local. A cada verso que gritava as veias do pescoço saltavam. Segurava na barra da bata, puxava a roupa com uma mistura de êxtase e dor. Batia palmas que davam ritmo à dança e todos acompanhavam (como no pagodão). E também igual ao no Brasil há muitas passagens nas letras em que se fala com orgulho da própria música. Exemplos:

“Ese Flamenquito guapo si no es mio, no es de nadie”. (Aqui.)

“Samba, a gente não perde o prazer de cantar/ E fazem de tudo pra silenciar/A batucada dos nossos tantãs”. 
(Conhece, né? Conhece.)

Ao final, os rostos suados puderam sorrir ouvindo os longos aplausos. Ainda tinha cerveja e a noite continuava, mais feliz. E pode não ter sido o melhor flamenco do mundo, mas tenho certeza que foi um autêntico flamenco, aqueles de fundo de quintal.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Roncos

Estava errado e indo pelo caminho certo lá pelas duas e meia da madrugada. Depois de passar por duas praças em que os lixeiros me olhavam como um deles, chego às ruas estreitas que direcionam para o endereço de minha casa. Os passos são ruidosos e lentos, muito por causa do asfalto de paralelepípedos. Poças d'água são parte das pisadas e seus ecos batem nas paredes das ruas que vão para o céu limpo de lua pequena. As luzes são fracas e servem de caminho para os desavisados ainda que podem significar que eu deveria estar dormindo, mas não. 

As portas estão abertas em sua maioria e temo encontrar algum velho nervoso por essas horas da matina. Os portões bem pintados contrastam com as paredes desbotadas de muitas cores: vermelho, bege, marrom. E as janelas sem proteção ou semi-cerradas providenciam um fenômeno de ruídos insólitos. Roncos.

O primeiro parece ser de uma senhora de 40 anos, pouco menos. O som nítido e pouco anasalado só se torna ronco quando toca de leve o céu da boca, é sutil. O outro é estrondoso. Deve ser um homem gordo que reclama de tudo, pois não há nenhum pudor (se é que existe) em eliminar o ar por bocas e nariz. Há mais uns dois mas não pude identificar, eram baixos e meus passos e respiração confundiam a minha audição.

Recordo-me de uma passagem do livro "O Encontro Marcado", de Fenando Sabino, em que um velho sábio e bêbado diz a Eduardo Marciano que o sono é a expressão mais sincera do ser humano. O rosto, as feições e, presumo, o ronco. E se alguém me perguntar, as "calles" de Sevilla respiram sim, e alto.


domingo, 18 de setembro de 2011

Somos estrangeiros



Uma semana e dois dias depois, finalmente arranjo tempo para escrever (lembrar) do que aconteceu aqui em Sevilha. Tudo é diferente, claro, mas consigo achar uns pontos em comum. A língua, a comida, o clima, tudo é diferente, era esperado, até meio óbvio.

Mas o mais curioso é estar sozinho (por muito tempo) e se sentir um verdadeiro estrangeiro. Não somente por causa da língua, mas da cultura e tudo que rodeia o espaço que percorro. São passos que nunca dei em ruas que nunca andei. Não existe rotina, não há um padrão para nada. Você não entende o que ouve, os anúncios de supermercado não fazem sentido e a grande mala é a prova que não estou em um lugar seguro.

E isso me faz bem.

Assim posso lembrar que nunca estamos completamente seguros ou que nunca devemos estar. Esse alerta de que tenho que fazer alguma coisa para mim, segundo meus desejos e tudo aquilo que penso é constante. Ninguém vai me ajudar. Aliás, essa lembrança vale para tudo o que já vivi e errei por aí: estar aqui é a sensação escancarada de que sempre tenho que saber aonde ir, o que fazer, o que escolher, com quem falar, como falar, como viver... pois se não souber, vou ficar parado. E eu, somente eu, posso e devo saber isso.

Minha família e amigos se mostram mais ainda presentes nos meus pensamentos. Tenho saudade, e isso é bom segundo um grande amigo meu. Mas, quando o assunto se desdobra em escolhas, as amizades e amores não confundem a certeza de estar sempre sozinho, o qual sempre estive por toda a minha vida e não saquei.

Somos constantes estrangeiros e isso me faz bem.