Essa coisa de recriar capas de revistas ou de discos clássicos é recorrente. A revista Serafina, da Folha, revisitou discos clássicos com artistas de reconhecimento de nicho, sem ser mega-populares ou ter relação direta com gravadoras. Uma nova geração fazendo música por uma nova lógica homenageando os seus mestres.
Essa do Cartola/Criolo ficou classe.
Só precisam avisar eles para isso não acontecer a cada três anos. Em 2009, a Trip fez o mesmo com a capa clássica da Revista Realidade de 1966, quando lançava a nova safra da música brasileira da época funcionando como produção coletiva, um influenciando (não diretamente, é verdade) no trabalho do outro. Olha o resultado aí:
Homenagem ou artifício da crítica pra fortalecer uma cena, o resultado ficou bem legal. E a Trip acertou nas escolhas de Céu, Romulo Fróes e Hélio Flanders. Ganjaman e Kassin já eram figuras carimbadas: o primeiro com Planet Hemp e Racionais e Kassin com Los Hermanos, Acabou La Tequila e Orquestra Imperial.
Segue abaixo uma resenha que fiz ano passado sobre Vagarosa, segundo disco da cantora CéU e considerado pela Rolling Stone e por muitos o melhor do ano de 2009. O disco é bonzão.
Quando o primeiro de disco de CéU foi lançado (CéU) em 2007, a paulistana já destoava de um grande montante de cantoras de saia-rodada, pés no chão e a MPB de sempre. O disco tinha aproximações com o reggae, o jazz, o samba e abusava de vários efeitos eletrônicos. No segundo álbum, esses vários elementos continuam presentes, porém numa forma mais orgânica, mais tocada.
Vagarosa (2009) apresenta a multiplicidade musical de uma cantora madura. Em cada música consegue chegar a lugares totalmente diferentes (uma mistura de jazz, soul, samba, MPB, reggae, psicodelia) mas toca o ouvinte sempre nas melodias, batidas marcadas e uma voz marcante. Esse paradoxo de diferença e unidade está presente em "Sobre o amor e seu trabalho silencioso", um "sambinha do morro" de menos de um minuto que abre o álbum, "Papa" uma batida jamaicana, com um toque de metais característico de jazzista parisiense e "Espaçonave" um rockzinho cheio de distorções que fecham o disco.
É um disco para se escutar com fone de ouvido. É para se debruçar nos detalhes e matizes dos sons de uma brasileira que faz uma música do mundo, não deixando de ser extremamente brasileira e original. Destaques para as faixas "Cangote" e "Grains de Beaute" de cadência e batida que entra na cabeça. Ouça também "Rosa Menina Rosa", originalmente um samba rock de Jorge Bem , mostra agora na versão de CéU uma canção com efeitos psicodélicos viajandões.
CéU consegue fazer um disco fluente, em que, apesar de apresentar músicas de origens diferentes, consegue chegar num fluxo consistente. Justo como diz a faixa "Bubuia". A palavra representa um fluxo, uma torrente. Assim é Vagarosa. Não tentando designar um estilo de som para todo um disco, CéU faz um disco com a sua cara, em que não dá para confundir voz e ritmo, nem pode estar fora da lista de melhores álbuns de 2009.